twitter no #rodaviva

estou no avião indo para salvador e – portanto – não estou participando da fantástica experiência de usar o twitter no #rodaviva, programa da TV Cultura. Com todas as ressalvas e todos os #nepotismosdobem incluídos nisso a Cultura tem me surpreendido e surpreendido muita gente com a sua (boa) utilização das novas mídias e abertura para novos projetos.

reafirmo, o twitter é a primeira grande quebra nos modelos de comunicação. A esquizofrênica comunicação de ‘muitos para nem tantos’ é difícil de explicar porque é complicado de achar paralelos/analogias. Das melhores comparações que ouvi, mesa de boteco borgeana e radio-amador foram as melhores… tendo em conta que fosse um radio-amador sem limitações de sinal. um radio-amador ubiquo, que fosse integrado com qualquer dispositivo capaz de produzir som e essencialmente um radio-amador que permitisse ouvir e falar com varias pessoas ao mesmo tempo.

(A questão do sinal, alias, é o cerne dos problemas de desempenho do twitter. A questão do sinal, alias, é a grande chave para os problemas de desempenho do twitter. Mas o papo do P2P vai ficar para um próximo post.)

Mas voltando a falar sobre o programa, a idéia é simples, colocar os convidados do #rodaviva – aquele circulo de fora onde estudantes e interessados geralmente são chamados para assistir passivamente ao programa e quem sempre me causou um pouco de desconforto – para twittar comentários e pensamentos sobre a cena que esta se passando logo abaixo na arena.

A idéia é simples mas seus desdobramentos são complexos pacas. Uma série de particularidades no formato do programa e no sistema do twitter criam esse casamento (teórico) perfeito.

  • O twitter já vinha sendo usado como palco para debates e discussões – muitas vezes acaloradissimas – mas que por sua própria limitação de tamanho deviam ser rápidas e breves.
  • Os convidados inertes do #rodaviva tem uma posição privilegiada, acompanhando com exclusividade os bastidores durante os intervalos e tendo uma visão de todos os participantes a todo momento. Uma das grandes complicações de programas como o #rodaviva é que, enquanto alguém esta fazendo uma pergunta ou ouvindo sua resposta, os outros estão (quase) todos pensando em suas próprias perguntas e portanto não prestando atenção na entrevista em si. Essa falta de visão global gera muitas vezes entrevistas super-fragmentadas que por sua vez leva impede um aprofundamento de certos questionamentos. Ter alguém observando e relatando o todo vai funcionar um pouco como um Grande Irmão ou um Panopticon foucautiano.
  • Convidar *twitteiros* é uma decisão complicada. Isso porque twitteiro é que nem blogueiro, tem de toda cor, gênero, credo e qualidade e ter twitter ou escrever nele não garante nada além disso. Ainda assim, trazer gente que tem familiaridade com o formato gera algum senso de identidade no projeto.
  • Ninguém precisa ser convidado para participar. Essa talvez seja a mais significativa das características. Convidar o cara para ir lá, presenciar e comentar é super legal, uma honra para alguns e tem vantagens que já mencionei a cima… mas sendo bem sincero, uma vez que o programa é ao vivo e passa na TV aberta e na web, não existe tanta diferença entre twittar do programa ou de casa, embaixo das cobertas, interagindo com outros twitters. Por questões de logística muito provavelmente a maior parte dos twitters convidados vão ser paulistas/paulistanos, o que não quer dizer de maneira alguma que vão vir deles os melhores comentários/opiniões.
  • Seguindo nesse raciocínio, uma vez estabelecido o modelo, ninguém pode ser *impedido* de participar deste ou de outros programas. Lembro, twitter não é um mecanismo tecnológico. É social. Se decidirmos, nós twitteiros, nós a ‘comunidade’, que vamos debater semanalmente o #rodaviva, os #debatespoliticos ou o último episódio de #lost, ninguém vai poder impedir. (Felizmente ninguém vai PRECISAR ler.)
  • Mas é claro que o fato da TV Cultura incentivar isso é um diferencial surrealmente fantástico com um retorno ainda difícil de mensurar. Se isso se tornar habitual, não vai demorar para termos gente entrando no twitter  ’só’ para participar dos debates do #rodaviva. Fãs do programa ou do entrevistado procurando conversar com outros fãs sobre o assunto do seu interesse. Isso já acontece em fóruns de Orkut, listas de discussão, mesas de bar e tenho certeza que deve acontecer em pvts no msn ou gtalk… mas, novamente, o twitter insere toda uma gama de elementos ai que só ele é capaz de fornecer de uma só vez. Ele é imediato e ao mesmo tempo atemporal e assíncrono.  Agrega pessoas diversas que passam se conhecer por intermédio daquela tag e não de fulano ou beltrano. É em si mesmo motor de combustão! E é sucinto, suficientemente (e para alguns exageradamente) sucinto.

Enfim… são alguns pontos que ficam aqui martelando na minha cabeça enquanto penso e repenso quais podem ser os resultados do programa. Tudo depende, claro, da qualidade da conversa. É um entrevistado super difícil, Miguel Jorge, pela composição da twittosfera seria e será muito mais fácil quando o convidado for alguém de tecnologia, artes ou esporte… mas acho que vale peitar esse desafio, não é?

Faltam, talvez, nesse texto algumas criticas costumeiras. Vamos ver… achei a idéia boa. Falta saber como vai ser – de fato – a execução para poder apontar melhor erros e acertos.

Curiosamente um problema que esta no meu radar é a própria escolha do Twitter como plataforma. Hoje eu filosofava mais cedo sobre isso… o modelo de comunicação ‘muitos para nem tantos’ permite resolver o maior problema de um projeto como esse que é a geração de um canal-spam da TV Cultura. É um convite, aceita quem quer, segue e da track quem quer. O ideal seria mesmo ter um ‘untrack’ para bloquear a tag e não ser pego de surpresa por um amigo que resolveu brincar… mas isso já é velha revindicação minha.

O problema mais grave, no entanto, é vincular-se a uma única empresa/solução externa e terceira sobre a qual você não tem nenhum controle. Claro, eu sempre digo que esse é o caminho natural para se seguir… para que hospedar os vídeos do seu projeto com um sistema mequetrefe desenvolvido pelo seu developer júnior se você pode usar o state-of-art vimeo sem custo adicional?

Mas quando falamos de um sistema interativo… obrigar o tele-espectador da Cultura a se registrar no Twitter caso queira participar, me parece (pouco, é verdade) complicado. Assim como obriga-lo a entrar no Twitter para acompanhar essa discussão…

Existem soluções possíveis? Acho que sim. Eu falava antes da ubiquidade do twitter. Vivemos uma era de mashups em toda esquina… com certeza da para se pensar em coisas criativas para contornar essas deficiências (ou não contornar, mas acho sempre importante pensar, não é mesmo?)

Do primeiro e mais óbvio, o site do Roda poderia centralizar com algum widget as conversas. Trackeando #rodaviva, usando o RSS do Twemes, dando follow em todos os que seguem @rodaviva… enfim, maneiras mil. Obviamente não pegaria tudo – eu mesmo sempre esqueço de usar tags – mas já é um avanço e dado que as premissas fossem públicas, quem não tageou que se lasque. Uma coisa tipo o @pinoquio do Roda ia ser muito legal.

Mas podemos ir além… imagine um remix do vídeo do Roda Viva, passando ao invés das legendas os twitts da galera? Sincronizados? No mínimo ia ser interessante… acho que rola fazer no dotsub. Alguém levanta o braço?

O outro problema é um pouco mais complicado. Como fazer não-twitters interagirem no sistema? Ou ainda, como fazer um sistema não-twitter que interaja com o twitter?

Esqueçam o Twitter. Que tal um servidor Jabber (aquele mesmo do Gtalk) com uma interface web na página da TV para discussões dos programas. Você pode entrar lá, fazer um cadastro e escrever textos de (até) 140 chars. Agora imagine que você cria um robozinho que pegue tudo que as pessoas disserem ali e publica no twitter como ‘@bot fulano: ‘ e que pega tudo que as pessoas que seguem @bot publicam no twitter com #tag e joga de volta no webchat como ‘@twitter fulano: ‘

Tá feito a ponte. De quebra você pode adicionar o robozinho direto no seu gtalk, assim como você faz com o Twitter e/ou em qualquer outro sistema compativel com Jabber. De quebra você tem um sistema flexível que permite criar pontes para outros sistemas… Jaiku, IRC, Gozub, you name it!

É uma espécie de suruba entre o #livestream, o #hashtags e o #jabber. Por favor, quem roubar essa idéia libere em Creative Commons, okey? Tenho outros usos para ela. Ah, e quem quiser realmente codar isso, pense em falar comigo e com o @cv para pirarmos um pouco juntos no Twitter descentralizado, okey?

Atenção tripulação… preparar para o pouso. Salvador. Cambio e desligo.

ps: estou publicando o texto sem links e sem revisão, amanhã faço isso :)

[update]

(1:46:18 AM) Lucia Freitas: eu quero ver a gravação… a paula tá contando que as legendas do twitter entraram tudo errado

e eu falando de crowdsourcing no dotsub… tsc… amador. isso é experimentação. o resto é firula universitaria. filhosdaputa.

[/update]

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19 Comments »

Comment by Mari-Jô Zilveti
2008-05-13 02:11:09

Markun,
gostei da sua pensata sobre o twitter no #rodaviva, dos questionamentos, dos argumentos. Queria rebater alguns pontos, mas passam das duas da matina e estou um farrapo digital e analógico.
Vou tentar voltar à carga amanhã.
De qualquer forma, teu post foi na veia em vários aspectos. Alguns insolúveis. E concordo em gênero, número e grau, a iniciativa da Cultura foi excelente.

abs digitais,

Mari-Jô Zilveti
http://nomadismocelular.wordpress.com
twitter: zilveti

 
Comment by Roberta Zouain
2008-05-13 12:16:12

Markun, faltou vc na discussão ontem. Eu confesso que há muito que não via o Roda Viva, e mesmo vendo a movimentação antes do programa não me senti muito atraída. “Eu, parar pra ver TV? Depois eu leio isso em algum lugar.” Pois bem, começa o programa (eu nem sabia o horário) e os twits começam a chegar. Eu, que nem sabia direito o tema, comecei a ler ao mesmo tempo em que lia alguns links indicados. A @garciasales mandou o link pro streaming – até cogitei ligar a TV, mas sabe como é…frio, preguiça. O streaming não funcionou direito, mas o @trecker, @lufreitas e @pedrodoria davam conta do recado. E se tinha algum comentário deles que eu não entendia, fácil: respondo e pergunto na lata. Os diálogos que começavam com os “twiteiros oficiais” se expandiam, mais gente ia entrando, gente que eu nem conhecia e começou a me “seguir”. O nível da discussão muito bom, de uma verdadeira “mesa de boteco borgeana”. E de repente, acabou o programa. Mas a discussão continuou no Twitter. É claro que a fórmula tem que melhorar ainda – dar voz aos “twiteiros oficiais” dentro do programa, colocar computadores lá (a @lufreitas deve ter desenvolvido uma LER de tanto twitar no celular ontem) são alguns dos pontos. Mas só o feito de estimular o diálogo em torno do tema e, principalmente, atrair um público afastado da TV já foram grandes conquistas da TV Cultura.
Bjs e que venha o próximo #rodaviva

 
Comment by Sandro Enomoto
2008-05-13 13:38:18

Ola Pedro,

Como diria Jack, por partes. A TV Cultura, com nova direção, possivelmente na figura do Julio Moreno, parece querer caminhar mais próxima da tecnologia e/ou capturar o publico jovem, por exemplo, ela montou um estudio e transmitiu ao vivo da Campus Party.

Sem dúvida a presença dos três twitteiros (Leandro Gabriel, Luciana Freitas e Pedro Doria) no Roda Viva é inovadora, mas como citei no twitter e você comentou no seu post, o formato deveria ser melhor estruturado. Qual o melhor formato? Eu não tenho muitas sugestões, pois no modelo de “arena livre” quando mais gente falando, pior é o resultado. Talvez botar a repórter assistente para sumarizar os posts do twitter e dos emails em uma pergunta faça mais sentido ou então os entrevistadores interagindo no twitter, imagine o se “blogueiro” Luis Nassif joga-se algo no twitter para tecer algo para a próxima pergunta?

Aviso que tenho lá meu viés com relação a jornalistas, dito isso, segue o meu comentário sobre os entrevistadores, que alguns não vão preparados para esse tipo de programa.

Ps.: Pedro o link para ver os comentários não esta funcionando, tanto no Firefox, como no IE 6.0.

Sandro
http://twitter.com/senomoto

Comment by Pedro Markun
2008-05-13 13:56:56

Por partes, então.

Concordo que o melhor formato ainda precisa ser encontrado. No momento só vejo perguntas e poucas respostas sobre isso… o que me anima é a vontade da Cultura de, justamente, testar modelos diferentes.

Exatamente pelo barulho excessivo trazido pelo modelo ‘arena livre’ é que acredito que o papel dos twitters não é de entrevistador ou interventor. É um layer adicional de conversa, coisa que só é possível hoje quando o hábito das multiplas leituras já esta enraizado no próprio processo de consumo da informação.

Twitter é disruptivo pacas!

Como eu não vi o programa não posso falar muito do que foi ou deixou de ser feito. Mas na minha cabeça faz sentido que a moça que trabalha com o feedback dos tele-espectadores passe a monitorar também o twitter. E talvez, com o tempo, faça sentido você ter mais um ou duas pessoas trabalhando nesse filtro e direcionamento do input público? Aumentando assim o grau de participação? É uma sugestão.

Mas como levantei no post existem outros problemas mais graves. Uma batida de olho nos comments do Pedro Dória, cujos leitores tem muito mais a ver com o tele-espectador usual do Roda do que os twitteiros nossos de cada dia, mostra com todas as letras que realmente ainda é preciso pensar melhor na própria ferramenta!

(Comments wont nest below this level)
Comment by Sandro
2008-05-13 14:22:43

Pois é Markun, a WEB 2.0, o twitter, as midias sociais, todas são um balde de aguas fria nas mídias tradicionais, especialmente por que não são via de mão única. Mas isso é conversa para mais de uma vida. ;)

Um adendo, o que é mais adequado? O Pedro Dória escrever no twitter para o publico habituado com o programa Roda Viva ou escrever para quem vive no twitter? Alías não da pra entender quase nada do que o Ministro falou pelo Pedro, gostei mais da linha do Luis @trecker Gabriel.

 
Comment by Pedro Markun
2008-05-13 14:33:21

Sandro,

não acho que tenha ‘jeito’ mais adequado. Essa pluralidade é mesmo sensacional. Mas se tivesse que escolher, eu preferia um twitter que produzisse mais reflexão e opinião do que simplesmente narrando a entrevista.

Sobretudo com transmissão na web, não faz tanto sentido ter um narrador e o twitter, por sua breviedade, não da conta de explicar.

Acho no entanto que é um aprendizado natural. A forma das ‘twittadas’ vai organicamente se adequando ao novo meio. A @lufreitas, o @trecker e o @pedrodoria foram tanto cobaias quanto o próprio #rodaviva :)

 
 
 
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