RPG, Social Media e reflexões sobre participação nas comunidades - I

Não sei exatamente porque razão mas o mundo tem mania de se polarizar mais em umas questões do que em outras. RPG é uma delas. Geralmente as pessoas que conhecem ou adoram ou acham uma babaquice imensa, coisa de gente goiaba… dificilmente encontro pessoas que simplesmente ‘acham legal’. E, infelizmente, neste mundo das mídias sociais muita gente vai na segunda opção.

Role Playing Games (em livre, tosca e nunca acertiva tradução ‘jogo de interpretação de papeis’) é na mais simplística das definições a evolução natural complexificação das brincadeiras infantis de bandido e mocinho onde grande parte da diversão consistia em fazer o outro entender que *sim, o seu tiro realmente acertou ele e não, o colete a prova de balas invisível não surtiu efeito*.

Essa redução simplista traz alguns elementos essenciais à tona mas deixa outros talvez muito mais relevantes encobertos pois jogar RPG é sonhar acordado, fantasiar, atuar, inventar e/ou dissimular e muito mais. É também possibilitar-se viver um alguém diferente em uma outra sociedade, com regras diferentes que apesar disso são pré-acordadas e não podem ser mudadas a bel prazer.

  • Cada sistema apresenta seu conjunto de regras técnicas que podem ir do simples jokenpo a formulas matemáticas quase impraticáveis para humanos normais.
  • Cada campanha traz sua própria concepção de mundo e seus próprios códigos de conduta social, ético e moral.
  • Cada personagem traz em si coisas intrínsecas do jogador, mas com o tempo cria vida própria pois as experiências vividas no jogo moldam a personalidade e os atributos tanto quanto as experiências trazidas de fora do jogo.

Muitas vezes é complicado dissociar o jogador do personagem, o personagem da campanha e a campanha do sistema. Mas isso, claro, é uma generalização danada.

E é mais ou menos por ai que, após uns ~8 anos sem jogar RPG, me peguei pensando nas relações entre essa vivência lúdica e a experiência de participar de uma comunidade online.

A coisa é muito mais simples e direta quando pensamos em termos de Second Life e MMORPGs como World of Warcraft, Tibia ou Ultima Online. Descontando todos os gráficos bonitinhos, vamos encontrar la atrás os MUDs que faziam (e ainda fazem) um grande sucesso nas BBSes da pré-historia da rede

Disso é só uma questão de abstrair a idéia de conversas em ‘dungeons’ organizadas espacialmente e temos ai varias de nossas comunidades de hoje, sejam listas de discussão, redes sociais ou salas de IRC ou tags no twitter, com todos os trolls que elas hoje contemplam e com todos os heróis que se aventuram por ali reunindo experiência e reconhecimento ao enfrenta-los e ao resolver desafios que beneficiem o coletivo.

A sociedade meritocrática que sustenta a rede tem diversas semelhanças com o universo dos RPGs.

Correndo o risco de forçar certas analogias, vou tentar escrever esse texto em partes, de baixo para cima, começando com o Personagem e passando pela Campanha e o Sistema, na tentativa de desenhar um paralelo entre o RPG e as Comunidades Online da Mídia Social. No próximo bloco: ‘Personagens, avatares e nicknames: Como parei de me preocupar com personas e passei a amar o Google

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5 Comments »

Comment by Vinicius Costa
2008-04-14 09:15:30

Pois é, quando falo pra minha namorada que eu joguei RPG por quase toda minha adolescência, ela me chama de maluco e diz que isso é coisa de gente doente, quer dizer, dizia, pois já consegui mostrar pra ela como a coisa realmente funcionava :)

 
Comment by Felipe Meyer
2008-04-14 11:04:29

Vinicius, achei que você ia dizer que tinha trocado de namorada :)
A minha esposa já aceitou o fato de que eu jogava e ainda jogo (quando posso) RPG. Mas ela ainda incorpora as filas dessa gente que generaliza e estereotipa o RPG e os jogadores (me recuso a chamá-los de RPGistas), abrindo talvez uma excessão ao marido (talvez).
Pedro, ótimo o texto. Espero ansioso pela continuação.

 
2008-04-14 15:55:28

Markun,

Na minha opinião, a característica virtuali da conexão entre as pessoas nas comunidades online, a inexistência do vínculo obrigatório de Pessoa vs. Personalidade que é sentida quando o contato é REAL e se dá em base constante cria um ambiente muito similar ao “sonhar acordado” do RPG.

O fato de você poder escolher o momento em que vai interagir socialmente, com quem vai interagir e por que meios vai interagir, somado ao caráter assíncrono do contato dá espaço para uma representação igual ou muito melhor à usada no RPG. O sujeito tem a possibilidade de criar um personagem e interpretá-lo escolhendo criteriosamente as comunidades de que faz parte no Orkut, os contatos no Twitter, etc. Além, óbvio, de ser muito mais fácil manter uma máscara quando você pode pensar duas ou três vezes antes de dar [ENTER] no que vai dizer.

Acho sim muito válida a comparação! Parabéns!

 
Comment by Joao Markun
2008-04-14 20:50:13

Pedro,

A generalizaçao é valida em certos aspectos, mas em que bloco você me enquadraria? nos sem bloco talvez? Já joguei Rpg com voce algumas vezes, mais nao sou nem nunca fui fanatico, nunca disse e talvez nao pretendo dizer que amo, e nao acho “estranhas” as pessoas que o fazem. Claro acho fanatismo de toda e qualquer coisa estranha, a pessoa que nao tem um papel seu, que nao tem um Nome ou que simplesmente vive de interpretar pode ser sim por mim chamado de freak mas nao o sistema. e assim como eu conheço algumas pessoas que se enquadram nos ACHO LEGAL que até então inexistia

Agora salve as excessoes a regra e validando seu ponto, eu gostei muito do texto, e espero pela continuaçao. Acho absolutamente pertinente, eu mesmo ja interpretai papeis diferentes na web, é simplesmente mais facil, voce pode reconfigurar as falas até que ache a que procura ou simplesmente dar uma olhada no google em busca de uma frase de efeito. Isso falando em realidade, interpretando a mim mesmo tlvz… É talvez hoje seja dificil separar o real do imaginario, aquele que nós construiamos dentro do quartinhos de brinquedos no sitio até as 7 da manha. Quantas pessoas sao uma coisa na web e outra no real?

abraço

 
2008-04-20 14:54:50

“A sociedade meritocrática que sustenta a rede tem diversas semelhanças com o universo dos RPGs.”

Os RPGs são baseados em nossas relações sociais, na realidade.

Mas os RPGs são uma construção, que trabalham com conceitos abstratos e não concretos. Os sistemas buscam “solidez” e se materializam nas regras, livros, planilhas e fichas de personagem.

A web tem raízes nesses mesmos 2 princípios:

1. é uma rede social feita de pessoas (dã) e baseada nas relações reais. busca adaptar estruturas existentes para a internet.

2. busca tangibilidade. afinal, o ser humano gosta de sentir, de ter parâmetros, referências.

Cara, essa porra toda de meritocracia, seja na web, nos rpgs, nas empresas ou até no twitter (que exibe quantos updates vc tem, quantas pessoas te seguem, etc) tem um único objetivo: TANGILIBILIDADE.

Pessoas *precisam* acreditar, dar valor, dar conscentimento social and all that crap.

ps: já joguei shadowrun, AD&D, Vampiro, Werewolf e Gurps.

 
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