Jornal de Debates - História

O Jornal de Debates original surgiu na década de 40 no Brasil e se propunha já naquela época um espaço de discussão aberto para todos aqueles que quisessem participar.

Diziam eles em sua carta de princípios, publicada na primeira edição, em 28 de junho de 1946:

Este jornal apresenta-se como uma tribuna absolutamente livre que agasalha toda e qualquer idéia, manifestada com proficiência sobre assuntos políticos, econômicos e sociais, não importando a cor política, a escola filosófica e o credo religioso dos autores. Não abriga, porém, ataques pessoais, diretos ou indiretos, nem injúrias, claras ou veladas, porque idéias só se destroem com idéias.

Pelo debate, polêmica e controvérsia, em alto nível, pelo acolhimento imparcial de todas as correntes de opinião, este jornal pensa concorrer para o desenvolvimento da democracia no Brasil. Aqui, com efeito, todos terão iguais oportunidades de manifestar livremente seu pensamento, sem nada pagar: para o Jornal de Debates idéias são bem comum, patrimônio social.

Comandado pelo corretor de imóveis João Augusto de Mattos Pimenta, o Jornal por várias vezes cumpriu o seu propósito, tendo grande importância no debate sobre a nacionalização do petróleo, o papel da mulher na sociedade, entre outros e trouxe artigos de grandes e importantes personalidades como Luiz Carlos Prestes, Malba Tahan e até o Barão de Itararé.

No entanto, o jornal sofria de um problema complexo. Não se pode negar que era um experimento colaborativo já naquela época e que ‘agasalhava toda e qualquer idéia’. Mas a limitação imposta pelo papel obrigava ou apontava para um seleção editorial que certamente deixou muitas vozes do lado de fora. Por plural e democrático que fosse, o jornal nunca poderia ouvir todos aqueles que gostariam de falar.

Meu pai faz parte de uma geração que viveu uma efervescência política muito grande durante o período estudantil. Talvez por isso tenha uma eterna indignação com a pasmaceira que ronda os campi universitários hoje em dia. Em uma palestra que deu em 2005 para os alunos de Comunicação da Unisinos comentou algo como:

“Quem aqui tem carro? Quem aqui ganhou um carro do pai, quando passou no vestibular? Um carro desses não custa menos que vinte mil reais. Querem fazer jornalismo? Porque não pedem, ao invés do carro, uma câmera e uma ilha de edição e vão de fato produzir jornalismo? Hoje, com a internet, é fácil e barato. Vocês podiam, por exemplo, recriar o Jornal de Debates uma publicação da década de 40 que…”

Enfim… e contou a história para aquele sem-fim de pequenos burgueses, que não viam a hora de bater o ponto e seguir o caminho da roça.

(Tá, tá, eu sei que você é uma exceção, que sua vida é dura, etc, etc, etc. Feliz? Então não aporrinha e continua lendo.)
Um ano depois, eu estava morando em Porto Alegre, tentando um curso novo e promissor ‘Comunicação Digital’, justamente na Unisinos. Não deu muito certo, mas essa é uma outra história. O ponto é que, obviamente, nenhum daqueles ~100 alunos da palestra tinham mexido um dedo para viabilizar um Jornal de Debates.

Meu pai na época estava escrevendo por sua conta e risco em um blog vagabundo no Terra que ainda hoje, parado e desatualizado, é o primeiro resultado na busca do Google. O IG havia recém começado essa política de chamar gente de bom conteúdo para escrever lá e só sei que acabei indo parar, como consultor informal, em um almoço com meu pai e o pessoal do conteúdo do IG para formatar alguma coisa conjunta.

Eu e meu pai já haviamos trabalhado algumas outras vezes juntas, sempre nessa soma onde ele entrava com o vasto conhecimento acumulado de Jornalismo e práticas de redação e eu com esse elemento das ‘mídias sociais’ que até então não tinha nem nome, nem forma definida (bom, até hoje não tem… maaas) e o rumo da conversa foi virando naturalmente… passamos de um ‘blog onde os comentários ficam em primeiro plano’ para a antiga e nunca engavetada idéia do Jornal de Debates em coisa de um chopp e meio.

O IG topou, esta(va) com essa política de ‘eu na web’ e ‘o mundo é você quem faz’ e (obviamente) o nome do meu pai trazia uma seriedade e comprometimento para a jogada que de outra forma seria muito mais difícil de conseguir.

Do acordo verbal até a formalização dos papéis e dos propósitos perdeu-se ainda algum tempo. Já era meio de julho e tínhamos um prazo curto e uma grana mais curta ainda para desenvolver todo um projeto de site que ainda não tinha benchmarks e referências claras por ai. O site precisava estar no ar em setembro, do contrário, perderíamos a chance de participar ativamente das eleições.

Essa pressa gerou muitos erros e alguns acertos que ainda agora reverberam no site. Planejamento É tudo. Se tenho que escolher uma única lição para se aprender. Os parceiros da Soluções, uma empresa de Joinville que já havia trabalhado com a gente antes, foram os únicos que toparam desenvolver o projeto com aquela grana e que nos garantiram a execução naquele curto espaço de tempo. O lado ruim é que terminamos com um site em .NET que é uma das plataformas mais herméticas com que já trabalhei.

Lançamos o site no dia 11 de setembro de 2006. Com o debate: ‘O 11 de Setembro mudou o mundo?‘. Nunca escrevi nada sobre isso, mas não tenho menor duvidas de que mudou. As eleições foram providenciais, em 9 de Outubro, dia do debate entre Lula e Alckmin, tivemos nada menos que meio milhão de pageviews em um debate que gerou 1142 artigos, nada mal, não?

De lá pra cá, o site mudou bastante, vários (pré)conceitos surgiram e caíram com a experimentação e o feedback constante dos colaboradores que são, no fundo e no raso, os verdadeiros construtores do projeto. A equipe editorial teve diversas caras e funções e hoje funciona como meros facilitadores dos processos colaborativos - ou pelo menos tenta. Os próprios colaboradores mudaram, ora mais políticos e engajados, ora mais reflexivos e filosóficos, ora as duas coisas e por vezes nenhuma. É uma experiência de readequação constante.

Meu pai, quando assumiu o papel de diretor da TV Cultura, se afastou efetivamente do projeto; que passou a ficar sobre minha direção. Não resta viva alma da equipe original de editores, aos quais sou eternamente grato pelo comprometimento e pelo carinho com que tocaram o projeto naquele momento ainda embrionário, que não sabíamos muito bem aonde ia dar.

Enfim, ~10k usuários, ~12k artigos e ~400 debates depois, mudanças, mutações e em dados momentos mutilações, acabaram desembocando nesta nova proposta de site, sobre a qual devo falar nos próximos textos.

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