Por um estúdio livre

Talvez ‘estúdio’ não seja a palavra ideal. Mas palavra é coisa que se troca e se acerta, mesmo em tempos de Google, então vou deixar isso de lado. Sei que Estúdio Livre já é uma entrada na wikipedia da vida com significado e história, mas desambiguemos e bola pra frente que o ponto não é esse ;)

Desde o lançamento do Livro Livre, que venho pensando na idéia de objetos (físicos) livres. Na verdade, todo o movimento do (Creative) Commons nasce com base nessa idéia de bens físicos e, no entanto, quase sempre consideramos isso uma propriedade aplicável somente aos bens simbólicos, imateriais – quando não somente aos bens digitais.
Em um texto que abre o livro Além das Redes de Colaboração, o Prof. Imre Simmon propoe uma tradução da palavra Commons como Rossio, palavra pra lá de feia que era usada para designar espaços de terras que podiam ser utilizados por qualquer pessoa da comunidade para um determinado fim.
O próprio Commons em inglês é o termo usado para designar espaços como ruas e praças, espaços públicos (físicos) de uso comum.
E ainda assim temos dificuldade em ver a aplicação da lógica do (Creative) Commons para além dos bens simbólicos. Pensamos sempre em música, filmes, textos e toda sorte de produção intelectual… mas raras vezes pensamos que um livro (objeto) pode ser tão livre quanto seu conteúdo, se assim ficar decidido.
Os livros livres estão ai, girando na praça e (espero) passando de mão em mão e mente em mente, maximizando assim seu uso. Mas mesmo essa liberdade ainda esta atrelada à idéia de que aquele produto intelectual ali contido pode ser lido várias vezes sem se desgastar.
Diante de tudo isso, rabisco aqui algumas idéias do que imagino ser um ‘estúdio livre’. Um espaço físico para a produção de conteúdo audiovisual que seja de uso comum, assim como são nossas praças e ruas, onde qualquer pessoa – respeitando certas normas da coletividade – pode usar e produzir.

Denver Open Media

Consta na história que o canal público de Denver passava pelo já conhecido sufoco orçamentário. Com uma audiência desprezível e pouco recurso para criar uma produção própria de qualidade, o canal e a cidade resolveram sentar juntos para decidir o próprio futuro da TV.
Dentre as soluções propostas, um grupo chamado Deproduction, propôs algo bastante interessante e transgressor. A TV deixaria de produzir seu conteúdo e ao invés disso tornaria-se uma grande central de produção para grupos e produtos independentes. Vale lembrar que muitas TVs do mundo todo já trabalham com grande parte da grade composta por produtos independentes, os caras só levaram isso às últimas conseqüências.
Hoje o Denver Open Media é uma organização composta por três pilares, Produção, Treinamento e Exibição.
A TV passou a fornecer para qualquer pessoa, mediante uma anuidade quase simbólica, acesso a todo o equipamento da emissora. São dois estúdios completos, dezenas de câmeras e ilhas de edição, equipamento de luz e áudio… enfim… toda sorte de equipamentos que se fazem necessários para a produção de um material audiovisual de qualidade.
Paralelamente a isso, um sistema web te permite entrar em contato com diversos profissionais, freelancers ou voluntários que podem te ajudar a concretizar a sua idéia.
Também é possível participar dos diversos e recorrentes módulos de treinamento que são oferecidos pela própria TV para que você ou seu grupo possam adquirir o expertise necessário para realizar o seu programa.
Um intricado sistema de direitos de comercialização entra em cena para tentar tornar os projetos e o processo sustentável e rentável, mas de toda forma a contrapartida é simples: todo o material produzido dentro da TV pode ser veiculado na própria TV. ‘Pode’, o que não quer dizer necessariamente que vai. Toda a grade da TV é escolhida colaborativamente e montada automaticamente usando um sistema baseado em Drupal que deve estar disponível publicamente em meados do ano que vem.

Modelos de negócios abertos

De forma resumida e simplificada, pode-se dizer que negócios 

abertos são aqueles que envolvem criação e disseminação de 

obras artísticas e intelectuais em regimes flexíveis ou livres 

de gestão de direitos autorais. Nesses regimes,  a propriedade 

intelectual não é um fator relevante para sustentabilidade da 

obra. No open business a geração de receita independe dos 

direitos autorais.

Entre as principais características desse modelo, estão a sus-

tentabilidade econômica; a flexibilização dos direitos de pro-

priedade intelectual; a horizontalização da produção, em geral, 

feita em rede; a ampliação do acesso à cultura; a contribuição 

da tecnologia para a ampliação desse acesso; e a redução de 

intermediários entre o artista e o público.

Esses modelos de negócios abertos baseiam-se em algum tipo 

de commons. A liberação do uso de uma obra pode se dar pela 

utilização de um instrumento legal como a licença Creative 

Commons ou por uma situação social, em que a ausência de 

estruturas de propriedade intelectual gera, na prática, o com-

partilhamento de conteúdo e livre acesso à obra.

 

Tecnobrega - O Pará reinventando o negócio da música.  ( Ronaldo Lemos e Oona Castro )