A colaboração invísivel

“One needs only to run a Google search on any subject of interest to see how the “information good” that is the response to one’s query is produced by the coordeinate effects of the uncoordinated actions of a wide and diverse range of individuals and organizations acting on a wide range of motivations— both market and nonmarket, state-based and nonstate.”

Yochai Benkler - The Wealth of Networks

Esses dias me peguei pensando em toda essa marola do colaborativo no qual estamos inseridos. É social isso, social aquilo, comunidades que vão de religião até batatinha… redes, grupos, grupos… enfim, tudo é conjunto, tudo é colab, as ações, os labores, atividades… e que na prática isso não estava funcionando tão bem assim. Será?

Para ficar com a prata da casa, o Jornal de Debates, é projeto colaborativo, democrático e que serve de tribuna pública para as discussões dos problemas da sociedade civil. Pelo menos em tese. Na prática, é um pequeno reduto onde uma ou duas duzias de pessoas encontraram um espaço para escrever e publicar suas opiniões.

Longe de desmerecer o projeto, isso valoriza, da forma e cria uma consistência e uma intimidade entre os participantes que o transforma em realmente algo com valor. Mas não é nem de longe a ferramenta de transformação social que aparecia nos mindmaps e primeiros rascunhos feitos a mão no guardanapo.

E essa angustia tomou conta de mim e fiquei ali matutando se essa tal colaboração não era muito mais um fetiche do que uma possibilidade real… foi quando me dei conta (e hoje de manhã Benkler confirmou) dessa ‘colaboração invisível’, essa que acontece o tempo todo na internet, que é de fato a base da internet como a conhecemos mas que poucas vezes damos o devido crédito.

Não falo aqui daqueles momentos onde a dita netiqueta prega que sempre cite-se a fonte da sua informação, isso geralmente se traduz com um link para o blog ou site onde você viu pela primeira vez aquela determinada notícia.

Falo das milhares de vezes onde você resolve alguma dúvida existêncial como quais discos fizeram parte do movimento tropicalista ou (acaba de me acontecer) como evitar que debates apareçam sem artigos no JD. Não fosse essa imensa, amorfa e invísivel comunidade essas respostas não seriam assim, ao alcancce de um click. ‘I’m feeling lucky!’

Por essa falta de percepção, já deixei e deixo de agradecer rotineiramente as Anas de Oliveira e os Ezras Barnett Gildesgame, sem os quais a rede hoje seria pouco mais do que espaço vazio.

Tanto o site do Drupal quanto o Tropicália foram em si mesmo comunidades e funcionam de forma colaborativa, mas curiosamente o real alcance da sua colaboração foge completamente ao escopo dos participantes da comunidade e vice-versa.

As cidades e o desejo (4)

No centro de Fedora, metrópole de pedra cinzenta, há um palácio de metal com uma esfera de vidro em cada cômodo. Dentro de cada esfera, vê-se uma cidade azul que ó o modelo para uma outra Fedora. São as formas que a cidade teria podido tomar se, por uma razão ou por outra, não tivesse se tornado o que é atualmente. Em todas as épocas, alguém, vendo Fedora tal como era, havia imaginado um modo de transformá-la na cidade ideal, mas enquanto construía o seu modelo em miniatura, Fedora já não era mais a mesma de antes e o que até ontem havia sido um possível futuro hoje não passava de um brinquedo numa esfera de vidro.

Agora Fedora transformou o palácio das esferas em museu: os habitantes o visitam, escolhem a cidade que corresponde aos seus desejos, contemplam-na imaginando-se refletidos no aquário de medusas que deveria conter as águas do canal (se não tivesse sido dessecado), percorrendo no alto baldaquino a avenida reservada aos elefantes (agora banidos da cidade); deslizando pela espiral do minarete em forma de caracol (que perdeu a base sobre a qual se erguia).

No Atlas do seu império, ó Grande Khan, devem contar tanto a grande Fedora de pedra quanto as pequenas Fedoras das esferas de vidro. Não porque sejam igualmente reais, mas porque são todas supostas. Uma reúne o que é considerado necessário, mas ainda não o é; outras, o que se imagina possível e um minuto mais tarde deixa de sê-lo.

Italo Calvino

Lançamento: Além das Redes de Colaboração

Vale separar tempo na agenda para o lançamento do livro  “Além das Redes de Colaboração: internet, diversidade cultural e
tecnologias do poder”.

Entre os articulistas estão o Prof. Imre Simon, Sérgio AmadeuAlex PrimoJoão Brant e Nelson Pretto. Só gente fera =)

O livro é produto do ciclo de debates Além das Redes de Colaboração que é parte do projeto Cultura e Pensamento do Minc. Pude acompanhar alguns dos debates que foram transmitidos online e disso já da pra ver que vem coisa boa por ai.

Enfim, fica a dica para quem quer refletir mais profundamente sobre esses assuntos que, em geral, a gente só aborda pelas beiradas.
Dia 27/08, quarta­-feira, às 19h (depois do Seminário de Direitos Autorais e Acesso à Cultura do
Ministério da Cultura)
Local: Auditório da USP Leste
Rua Arlindo Béttio, 1000, Ermelino Matarazzo, São Paulo.

Jornal de Debates e uma estrada de cms amarelos

A saga de transformação do Jornal de Debates, durou coisa de um ano e meio. Seis meses passados do lançamento daquela primeira versão, já havíamos esbarrados com diversos problemas no sistema - muitos decorrentes de um desenvolvimento apressado e curto tempo de planejamento e outros simples frutos do acumulo de experiência.

O verdadeiro sentido do ‘beta eterno’ que vemos por ai e que é profetizado pelo grande Sílvio Meira, não é tanto o repensar constante do criador sobre sua obra, mas sim as novas leituras que os milhares de usuários e visitantes fazem a cada minuto. Não canso de me surpreender com os colaboradores do Jornal de Debates e sua aparentemente infinita capacidade de inventar novas maneiras de interagir com o conteúdo, de não entender ou re-entender como querem as funcionalidades propostas e de criar e resolver problemas sem que seja preciso mudar uma única linha de código.

Foi assim que percebemos, por exemplo, que a Enquete era uma função bonitinha, mas ordinária. Que não adiantava usar um sistema de votação simples de 0 a 5 porque isso fazia com que o artigo em destaque fosse sempre o último artigo onde o próprio autor resolveu votar 5 no seu próprio artigo. Que para uns, o limite minimo de 2000 chars era intransponível mas para outros o limite máximo de 20000 igualmente um problema. Que nossa interface administrativa funcionava muito bem nos primeiros meses, mas com +5000 artigos a coisa começava a ficar complicada e nossos editores acabavam perdendo mais tempo esperando o reload do que pensando e propondo debates… Que os blogueiros, por interessados que fossem, já tinham seu espaço cativo e dificilmente iriam sair da comodidade de seus blogs para vir escrever nessa arena estranha… e enfim, uma série de outras constatações que surgem dessa interlocução constante com um site que além de vivo, não me pertence.

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Jornal de Debates - História

O Jornal de Debates original surgiu na década de 40 no Brasil e se propunha já naquela época um espaço de discussão aberto para todos aqueles que quisessem participar.

Diziam eles em sua carta de princípios, publicada na primeira edição, em 28 de junho de 1946:

Este jornal apresenta-se como uma tribuna absolutamente livre que agasalha toda e qualquer idéia, manifestada com proficiência sobre assuntos políticos, econômicos e sociais, não importando a cor política, a escola filosófica e o credo religioso dos autores. Não abriga, porém, ataques pessoais, diretos ou indiretos, nem injúrias, claras ou veladas, porque idéias só se destroem com idéias.

Pelo debate, polêmica e controvérsia, em alto nível, pelo acolhimento imparcial de todas as correntes de opinião, este jornal pensa concorrer para o desenvolvimento da democracia no Brasil. Aqui, com efeito, todos terão iguais oportunidades de manifestar livremente seu pensamento, sem nada pagar: para o Jornal de Debates idéias são bem comum, patrimônio social. (more…)