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friday

Friday

eu quero

Um amor que é só meu

Amiga
Nem sei como lhe diga
Essa ternura antiga
De repente doeu
Perdoe
Eu sei que não devia
Mas da noite para o dia
O amor aconteceu

E embora doa
De uma dor dilacerante
É um amor tão amante
Tão sozinho se deu, sou eu

Quem sabe
Que mesmo contra tudo
Que forçado a ser mudo
Foi o amor que nasceu
E me deu tanto
Fez as coisas tão mais belas
Abriu tantas janelas
Tudo reverdeceu, e eu, amiga
Lhe sou tão obrigado
Mas não tenha cuidado (mas não há de ser nada)
É um amor que é só meu

[Vinicius de Moraes]

Conversas furtadas

de Tono-Bungay

Ainda bem que ela não fez isto. Eu me vi envolvido numa conversa com uma distinta senhora, a vizinha do meu lado, uma mulher baixinha de ar tristonho, aparência lânguida e voz suave; nosso tema preferido foram cães e gatos.

- Eu sempre sinto – disse a melancólica senhora – que existe alguma coisa no cão. No gato, não.

- Isso mesmo – estava eu admitindo com grande entusiasmo -, existe alguma coisa, sim. E além disso…

- Oh! Eu sei que há também qualquer coisa no gato. Mas não é igual.

- Não exatamente igual – admiti – ; no entanto, sempre é alguma coisa.

- Ah! Mas uma coisa tão diferente!

- Mais sinuosa.

- Muito mais.

- Sempre bem mais.

- A diferença toda está ai, você não acha?

- Sim – respondi -, toda.

Ela me olhou com o rosto sério e falou, suspirando profundamente: – Sim.

Caiu um silêncio profundo.

nonsense (ou lewis carroll meets open data)

(15:06:16) 1: você é chato.
(15:06:30) 2: conversa comigo
(15:06:35) 2: inventa uma história?
(15:06:59) 1: ontem tinha um oficial da PRODAM na porta da minha casa na hora do espetáculo do Circo
(15:07:05) 1: e ele disse assim
(15:07:14) 1: “eu gostaria muito de oficializar esse Circo”
(15:07:21) 1: e eu bati nele com uma marreta
(15:08:25) 1: e a o anão me disse
(15:08:34) 1: “mas eu nem sabia que a PRODAM tinha oficiais!”
(15:09:11) 1: “e ainda assim com todas as caixas altas!”  eu respondi

blogsecreto

tenho um blog secreto dentro da minha cabeça. ficam nele todos os gritos contidos.

As cidades e o desejo (4)

No centro de Fedora, metrópole de pedra cinzenta, há um palácio de metal com uma esfera de vidro em cada cômodo. Dentro de cada esfera, vê-se uma cidade azul que ó o modelo para uma outra Fedora. São as formas que a cidade teria podido tomar se, por uma razão ou por outra, não tivesse se tornado o que é atualmente. Em todas as épocas, alguém, vendo Fedora tal como era, havia imaginado um modo de transformá-la na cidade ideal, mas enquanto construía o seu modelo em miniatura, Fedora já não era mais a mesma de antes e o que até ontem havia sido um possível futuro hoje não passava de um brinquedo numa esfera de vidro.

Agora Fedora transformou o palácio das esferas em museu: os habitantes o visitam, escolhem a cidade que corresponde aos seus desejos, contemplam-na imaginando-se refletidos no aquário de medusas que deveria conter as águas do canal (se não tivesse sido dessecado), percorrendo no alto baldaquino a avenida reservada aos elefantes (agora banidos da cidade); deslizando pela espiral do minarete em forma de caracol (que perdeu a base sobre a qual se erguia).

No Atlas do seu império, ó Grande Khan, devem contar tanto a grande Fedora de pedra quanto as pequenas Fedoras das esferas de vidro. Não porque sejam igualmente reais, mas porque são todas supostas. Uma reúne o que é considerado necessário, mas ainda não o é; outras, o que se imagina possível e um minuto mais tarde deixa de sê-lo.

Italo Calvino

en la ventana estaban los tejados de siempre y el sol nublado de las seis

…En la ventana estaban los tejados de siempre y el sol nublado de las seis. Me pareció increíble que es día sin premoniciones ni símbolos fuera el de mi muerte implacable. A pesar de mi padre muerto, a pesar de haber sido un niño en un simétrico jardín de Hai Feng ¿yo, ahora, iba a morir? Después reflexioné que todas las cosas le suceden a uno precisamente, precisamente ahora. Siglos de siglos y sólo en el presente ocurren los hechos; innumerables hombres en el aire, en la tierra y el mar, y todo lo que realmente me pasa me pasa a mí…

 J.L. Borges

fazia sol e as pantufas esperavam

Valendo - A Espera