Um amor que é só meu
30-Mar-10
Amiga
Nem sei como lhe diga
Essa ternura antiga
De repente doeu
Perdoe
Eu sei que não devia
Mas da noite para o dia
O amor aconteceu
E embora doa
De uma dor dilacerante
É um amor tão amante
Tão sozinho se deu, sou eu
Quem sabe
Que mesmo contra tudo
Que forçado a ser mudo
Foi o amor que nasceu
E me deu tanto
Fez as coisas tão mais belas
Abriu tantas janelas
Tudo reverdeceu, e eu, amiga
Lhe sou tão obrigado
Mas não tenha cuidado (mas não há de ser nada)
É um amor que é só meu
[Vinicius de Moraes]
Conversas furtadas
25-Dec-09
de Tono-Bungay
Ainda bem que ela não fez isto. Eu me vi envolvido numa conversa com uma distinta senhora, a vizinha do meu lado, uma mulher baixinha de ar tristonho, aparência lânguida e voz suave; nosso tema preferido foram cães e gatos.
- Eu sempre sinto – disse a melancólica senhora – que existe alguma coisa no cão. No gato, não.
- Isso mesmo – estava eu admitindo com grande entusiasmo -, existe alguma coisa, sim. E além disso…
- Oh! Eu sei que há também qualquer coisa no gato. Mas não é igual.
- Não exatamente igual – admiti – ; no entanto, sempre é alguma coisa.
- Ah! Mas uma coisa tão diferente!
- Mais sinuosa.
- Muito mais.
- Sempre bem mais.
- A diferença toda está ai, você não acha?
- Sim – respondi -, toda.
Ela me olhou com o rosto sério e falou, suspirando profundamente: – Sim.
Caiu um silêncio profundo.
(15:06:16) 1: você é chato.
(15:06:30) 2: conversa comigo
(15:06:35) 2: inventa uma história?
(15:06:59) 1: ontem tinha um oficial da PRODAM na porta da minha casa na hora do espetáculo do Circo
(15:07:05) 1: e ele disse assim
(15:07:14) 1: “eu gostaria muito de oficializar esse Circo”
(15:07:21) 1: e eu bati nele com uma marreta
(15:08:25) 1: e a o anão me disse
(15:08:34) 1: “mas eu nem sabia que a PRODAM tinha oficiais!”
(15:09:11) 1: “e ainda assim com todas as caixas altas!” eu respondi
blogsecreto
12-Oct-08
tenho um blog secreto dentro da minha cabeça. ficam nele todos os gritos contidos.
As cidades e o desejo (4)
20-Aug-08
No centro de Fedora, metrópole de pedra cinzenta, há um palácio de metal com uma esfera de vidro em cada cômodo. Dentro de cada esfera, vê-se uma cidade azul que ó o modelo para uma outra Fedora. São as formas que a cidade teria podido tomar se, por uma razão ou por outra, não tivesse se tornado o que é atualmente. Em todas as épocas, alguém, vendo Fedora tal como era, havia imaginado um modo de transformá-la na cidade ideal, mas enquanto construía o seu modelo em miniatura, Fedora já não era mais a mesma de antes e o que até ontem havia sido um possível futuro hoje não passava de um brinquedo numa esfera de vidro.
Agora Fedora transformou o palácio das esferas em museu: os habitantes o visitam, escolhem a cidade que corresponde aos seus desejos, contemplam-na imaginando-se refletidos no aquário de medusas que deveria conter as águas do canal (se não tivesse sido dessecado), percorrendo no alto baldaquino a avenida reservada aos elefantes (agora banidos da cidade); deslizando pela espiral do minarete em forma de caracol (que perdeu a base sobre a qual se erguia).
No Atlas do seu império, ó Grande Khan, devem contar tanto a grande Fedora de pedra quanto as pequenas Fedoras das esferas de vidro. Não porque sejam igualmente reais, mas porque são todas supostas. Uma reúne o que é considerado necessário, mas ainda não o é; outras, o que se imagina possível e um minuto mais tarde deixa de sê-lo.
Italo Calvino
…En la ventana estaban los tejados de siempre y el sol nublado de las seis. Me pareció increíble que es día sin premoniciones ni símbolos fuera el de mi muerte implacable. A pesar de mi padre muerto, a pesar de haber sido un niño en un simétrico jardín de Hai Feng ¿yo, ahora, iba a morir? Después reflexioné que todas las cosas le suceden a uno precisamente, precisamente ahora. Siglos de siglos y sólo en el presente ocurren los hechos; innumerables hombres en el aire, en la tierra y el mar, y todo lo que realmente me pasa me pasa a mí…
J.L. Borges



