ONTEM, HOJE, AMANHÃ
15-Jul-11
Gosto muito de olhar para trás – ajuda a entender o hoje e projetar o amanhã. Por isso, sugiro que comecemos com uma rápida viagem à França em 1665. Mais exatamente ao dia cinco de janeiro, quando os parisienses puseram as mãos nas doze páginas da primeira edição de Le Journal des savants.
Era a primeira revista da história do planeta. Seu criador chamava-se Denis de Sallo, um nobre conselheiro do parlamento de Paris. Leitor contumaz – e cuidadoso -, devorava o que lhe caísse nas mãos. Com a ajuda de um punhado de secretários, anotava e comentava o que lhe chamava a atenção. Anotou tanto, que resolveu partilhar essas observações sobre o trabalho alheio por meio de uma publicação semanal.
Naquele tempo, novas ideias circulavam com dificuldade e ninguém estava acostumado com a crítica independente. Lançar um semanário disposto a monitorar o avanço nas ciências e nas artes foi uma ousadia. Mas deu tão certo que pouco adiante, a fórmula de Sallo foi replicada em dezenas de publicações por toda a Europa.
A soma de crítica independente, periodicidade e textos curtos facilitou o desenvolvimento de debates sobre muitas questões. O conjunto dessas publicações – e a multiplicação das academias – tiveram papel relevante na revolução científica que marcou a história da humanidade.
Em resumo, Le Journal des savants parece brincadeira num mundo conectado por uma gigantesca rede de comunicação horizontal, livre e meio anárquica, que cresce a cada minuto. No começo de abril, tive a oportunidade de ir à França de Sallo, na condição de mais um entre 11.500 profissionais de comunicação de 107 países, interessados nas possibilidades, desafios e negócios do mercado televisivo. Encontrei um traço comum no MIPTV 2011 – um gigantesco ponto de interrogação.
Os executivos de TV não querem repetir o erro cometido pela indústria musical que bateu de frente com a internet – e se deu mal. As corporações adotaram a tática de combater a circulação de música pela rede. A consequência é que as grandes empresas do ramo, cujo faturamento baseia-se na venda de discos, vêm perdendo lucratividade de maneira exponencial.
Ao invés de renegar e combater a rede, o povo da TV procura uma maneira integrar as várias telinhas, mantendo seu negócio em funcionamento. Já perceberam que não adianta apenas produzir uma série, novela, telejornal, programa de auditório, documentário e cruzar os braços. O telespectador já não quer o papel que Didi, dos Trapalhões bem definiu, ao chamá-lo de “o da poltrona.” Como fazer isso, sem comprometer o faturamento triliomário de uma indústria poderosa é o xis da questão
Mais e mais pessoas assistem a programas de TV e, ao mesmo tempo, usam algum outro tipo de aparelho, como computadores, celulares ou a nova tecnologia dos tablets. Segundo Nick Thomas, da Forrester Research, 50% das pessoas que estão vendo TV navegam pela web simultaneamente. Quando aparece um comercial na tela, eles mergulham na rede, deixando os anunciantes a ver navios.
Uma pessoa normal olha, em média, 150 vezes ao dia para seu celular. Se multiplicarmos esse número pelo total de assinaturas de serviços móveis em todo mundo – 5,2 bilhões – podemos imaginar o potencial e o risco que esse aparelhinho nos oferece. E não apenas em termos de comunicação.
Ouvi do maior executivo da Ericsson, Hans Vestberg em Cannes, que a soma de banda larga, mobilidade e computação em nuvem vai revolucionar a transmissão de conteúdo nos próximos anos. Vestberg calcula que, em 2015, mais de 90% da população do planeta terá acesso a redes de telefonia celular, sendo 5 bilhões com acesso móvel a banda larga. Uma condição que vai transformar a maneira como as pessoas acessam a internet e o que elas vão consumir. O Brasil está atrasado nesse campo, mas pode queimar etapas. Não é à toa que o plano nacional de banda larga aposta firme nas operadores de celular.
Mas olhando para o futuro, é possível prever que a internet vai mudar radicalmente os negócios, a ciência, a educação e a política.
Cinco perguntas apenas de uma lista imensa:
1- a televisão aberta continuará sendo o pilar de toda a indústria da propaganda?
2- a escola vai funcionar na base da lousa, do giz e de uma professora falando?
3- os bancos terão o mesmo papel num mundo em que o dinheiro será todo virtual e as trocas entre pessoas cada vez mais fáceis?
4- as maracutaias se repetirão quando cada um de nós puder acompanhar para onde vai nosso dinheiro on line e sem complicação?
5- os currais eleitorais e os coronéis da política sobreviverão no momento em for possível votar com frequencia usando chips distribuídos pela Justiça Eleitoral, como já acontece na Estônia?
Se eu tivesse a resposta para qualquer uma dessas perguntas, estaria rico. Por enquanto, acho indispensável (e divertido), procurar por ela. Se não for em Paris ou em Cannes, olhando um punhado de veleiros na baía norte da nossa ilha.

